domingo, janeiro 22, 2006

O lápis é cor de pele ou cor de carne?

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Hamilton Naki, um sul-africano negro de 78 anos, morreu no final de maio de 2005. A notícia não rendeu manchetes, mas a história dele é uma das mais extraordinárias do século 20. "The Economist" contou-a em seu obituário desta semana.
Naki era um grande cirurgião. Foi ele quem retirou do corpo da doadora o coração transplantado para o peito de Louis Washkanky em dezembro de 1967, na cidade do Cabo, na África do Sul, na primeira operação de transplante cardíaco humano bem-sucedida.
É um trabalho delicadíssimo. O coração doado tem de ser retirado e preservado com o máximo cuidado. Naki era talvez o segundo homem mais importante na equipe que fez o primeiro transplante cardíaco da história. Mas não podia aparecer porque era negro no país do apartheid.
O cirurgião-chefe do grupo, o branco Christiaan Barnard, tornou-se uma celebridade instantânea. Mas Hamilton Naki não podia nem sair nas fotografias da equipe.
Quando apareceu numa, por descuido, o hospital informou que era um faxineiro. Naki usava jaleco e máscara, mas jamais estudara medicina ou cirurgia.
Tinha largado a escola aos 14 anos. Era jardineiro na Escola de Medicina da Cidade do Cabo. Mas aprendia depressa e era curioso. Tornou-se o faz-tudo na clínica cirúrgica da escola, onde os médicos brancos treinavam as técnicas de transplante em cães e porcos.
Começou limpando os chiqueiros. Aprendeu cirurgia assistindo experiências com animais. Tornou-se um cirurgião excepcional, a tal ponto que Barnard requisitou-o para sua equipe.
Era uma quebra das leis sul-africanas. Naki, negro, não podia operar pacientes nem tocar no sangue de brancos. Mas o hospital abriu uma exceção para ele.
Virou um cirurgião, mas clandestino. Era o melhor, dava aulas aos estudantes brancos, mas ganhava salário de técnico de laboratório, o máximo que o hospital podia pagar a um negro. Vivia num barraco sem luz elétrica nem água corrente, num gueto da periferia.
Hamilton Naki ensinou cirurgia durante 40 anos e aposentou-se com uma pensão de jardineiro, de 275 dólares por mês. Depois que o apartheid acabou, ganhou uma condecoração e um diploma de médico honoris causa. Nunca reclamou das injustiças que sofreu a vida toda.

Armando Mendes, "O cirurgião clandestino"
Capturado em junho de 2005 no blog de Augusto Noblat. Às vezes, eu guardo textos por meses até ter vontade de publicá-los. Esse aí você deve ter lido em outros blogs.

Um comentário:

Anônimo disse...

Esta história é absolutamente, mas aboslutamente mesmo, idêntica ao que aconteceu nos EUA na década de 40 com os pioneiros da cirurgia cardíaca: Alfred Blalock (branco) e Vivien Thomas (negro). Com uma única diferença, a John Hopkins University, onde os dois trabalhavam, concedeu depois de algumas décadas o cargo de Diretor e o título Doutor Honoris Causa a Thomas.

Em 2005 a HBO fez um filme excelente a respeito do assunto chamado "Something the Lord Made", com Alan Rickman. http://www.hbo.com/films/stlm/6792/